quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Bailarina + dor = Mito!


Bailarina + dor = Mito!

Superar a dor é quase um mantra na vida de muitos bailarinos, mas será que a dança sempre deve ser sinônimo de dor?



Antes de começar a fazer faculdade de Fisioterapia, conversando com a bailarina egípcia Farida Fahmy, ela me disse a seguinte frase: “Quando dançamos, construímos uma relação muito íntima e perigosa com o nosso corpo, porque confundimos superação com desrespeito ao nosso limite!”.  Ela estava certa.
É fundamental aprender a ouvir os sinais que o nosso corpo dá e, acredite, ele dá sinais.




Os riscos de lesão  são multifatoriais; idade, gênero, tempo de prática, índice de massa corpórea, treino suplementar, fatores ambientais, biomecânicos e psicológicos são citados pelos autores. (BOLLING, 2010)
No caso da dança clássica, bailarinos sofrem uma exigência corporal comparada a de atletas de alta performance, com longo período de formação, e as estatísticas mostram que o número de lesionados é alto e cerca de 80% dos profissionais já sofreram uma lesão incapacitante ao decorrer de suas carreiras, conforme a tabela abaixo. 

80% dos bailarinos experimentam uma lesão incapacitante durante suas carreiras

65% das lesões de dança são por excesso de uso

35% dos acidentes relacionados à dança

90% das lesões ocorrem quando um bailarino está cansado

98% das lesões de dança são tratados conservadoramente

                                                                                                                            (SIMPSON, 2006)


Mas o que torna esse número tão alto? A recusa dos bailarinos a procurarem atendimento adequado porque  muitos temem o afastamento e acreditam que isso prejudicará as suas carreiras. O medo é maior do que a percepção de que esta lesão poderá afastá-lo para sempre da dança. Ao invés de procurar atendimento médico e fisioterápico, a maioria dos bailarinos recorre a tratamentos alternativos como acupuntura e massagens. Não que eu não acredite neste tipo de tratamento, porém como fisioterapeuta atesto que se não sabendo qual é a lesão o tratamento fica comprometido. Por isso, identificar a lesão é o primeiro passo.

A resistência em procurar ajuda profissional também dificulta o mapeamento das lesões específicas que os bailarinos sofrem. As Lesões comuns afetam o pescoço, ombro, coluna, joelho, perna e pé. (McCabe,2013). Percebe-se que além de ser abrangente em relação à região acometida, não consegue se  fechar um diagnóstico das lesões mais recorrentes.



Parece contraditório o que escrevi até agora, não? Pois, se o titulo afirma que sentir dor é mito, como estou comprovando a existência e o número de lesões? Não estou doida! Estou seguindo por um caminho a fim de conscientizar a responsabilidade. Não sei se perceberam, mas apenas 35% das lesões estão relacionadas a acidentes (não necessariamente inevitáveis). A dificuldade para criar um programa de prevenção de lesão existe porque  não sabemos quais são as mais frequentes. Olhem por exemplo o futebol, a FIFA defende um programa FIFA 11+ - uma série de 11 exercícios indicadas para qualquer tipo de jogador de  futebol, sejam eles profissionais, amadores ou simples atletas de finais de semana) http://f-marc.com/11plus/exercises/



A cultura de nos acostumarmos com a dor, e aprender a ignorar os sinais que o corpo dá é o que faz nossa carreira ficar mais curta, e nosso corpo estar em constante stress. Precisamos ensaiar, fazer aulas, fortalecer o corpo, dançar, participar de espetáculos e shows... Ufffffffaaaaaaaaaaaaa

Tudo isso cansa.  Estabelecer prioridades já é um bom começo e uma boa noite de sono e alimentação são fundamentais para um corpo saudável. Uma rotina bem estabelecida com disciplina e organização também!

Mas sem mudar o rumo da prosa, precisamos cuidar de quem nos sustenta e coloca comida na mesa: cuidar do corpo é fundamental para manter a profissão em andamento!

Não existe o espinafre do Popeye!



Eu defendo  um trabalho específico e progressivo para cada tipo de atividade corporal, seja  ela qual for. O suporte de bons profissionais é o que faz a diferença!

Preparo corporal + Técnica adequada + descanso + boa alimentação = Sucesso!



Prometo que em breve postarei uma série de exercícios que eu acredito que sejam bons para dança!



Referência Bibliográfica:

Bolling, C S; Pinheiro, T M M. Bailarinos Profissionais e saúde: Uma revisão da Literatura. Rev.

M. D. Minas Gerais; 20 (2 supl.2):S75-S83, abr-jun.2010

McCabe TR, Wyon M, Ambegaonkar JP, Riding E. A bibliographic review of medicine and

science research in dancesport. Med Probl Perform Art Jun;28(2):70-9. 2013.

http://www.danz.org.nz

http://f-marc.com/11plus/exercises/

2 comentários:

  1. Oi Flora, muito legal sua postagem, é o corpo dá sinais mesmo e procurar ajuda o quanto antes é urgente caso os sinais sejam a dor frequente.
    Queria tirar uma dúvida contigo, se for possível e não for abusar da sua cordialidade.
    Existe algo comprovado, algum estudo que indique que problemas musculares, articulares, possa ser transmitido geneticamente? rs Eu pergunto isto, pois minha mãe apresenta alguns problemas, como esporão e bico de papagaio, todos relacionados ao lado direito do corpo, e eu comecei a sentir dores no quadril e ombros direitos, com quadros de dor parecidos com de minha mãe.
    Sei que o primeiro passo é procurar orientação médica, mas eu gostaria que vc pudesse falar algo a respeito, ou é só viagem da minha cabeça.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Existe sim, Ana!
    Principalmente em relação a cartilagem! A relação é bem presente! O bico de papagaio é a deposição de tecido ósseo em regiões da vértebra causando deformidades, pois o osso não deveria crescer dessa forma.
    Isso acontece porque o disco vertebral não absorve o impacto recebido na coluna e ela entende que precisa de mais osso para aguentar. Grosseiramente é mais ou menos isso q acontece! O esporão, é quaaaaseeeeeeee o mesmo mecanismo, mas envolve o tendão calcaneo então acaba sendo um pouco diferente!
    Mesmo que exista essa relação genetica, vc deve sim procurar um médico! Para descobrir de fato qual é o diagnostico e por isso acontece e estabilizar as degenerações.
    Bjos

    ResponderExcluir